29.6.11

A Cama

Ele tinha tudo. Todo o dinheiro que ela nunca ia ter, mesmo que trabalhasse todas as 24 horas do dia.

O lustre da sala - ou o lustre do hall, ou qualquer lustre da casa - deveria custar alguns meses do aluguel que ela pagava. Talvez até um ano inteiro. Ou mais. Ela não fazia ideia do preço de lustres enormes, pesados e brilhantes. Eles nunca fizeram parte da sua vida. E ele queria ela. E a cama dele era quase da largura do quarto dela. Macia na medida certa. O melhor travesseiro em que ela já dormira. E os lençóis...

Ele a queria, desejava-a. E sempre tivera tudo o quis e desejou. O dinheiro sempre lhe deu tudo. Aquele carro esportivo na garagem deve ter ajudado. Mas para ela, tanto fazia. Acostumou-se a caminhar, pegar ônibus. E assim ela ia. Sempre chegava aonde queria. E ela não gostava de ouvir que era "diferente". Preferia acreditar que as mulheres se entregavam aos homens por tesão.

...

Ela começara o dia com uma taça de vinho. Depois mais outra, e ainda mais um pouquinho. No churrasco, cervejas, muitas cervejas e  algumas caipirinhas. Uns pedaços de carne ajudavam o corpo a ficar em pé. Dizem que paulista não sabe fazer churrasco, mas aquela carne tava bem boa. E assim foi até a noite. E ela resolveu, mesmo assim, sair com ele. Estava meio bêbada, mas não dava nada.

Cada um com sua cerveja, ele dá o bote e PERAÍ. Não quero. Sai fora! Ela já não o vê com os mesmo olhos. Perdera a inocência. Discutiram, brigaram e ela se imaginava segurando um revolver e atirando uma, depois mais outra e ainda outra vez contra o peito dele. Empurrando-o de um precipício. Estrangulando-o. Aquela prepotência toda deixava-a extremamente irritada. Ele, nervoso, tentava provar que sua genética era superior. Foda-se a genética! Ela não queria saber de genética nenhuma. Não pretendia deixar descententes para a espécie humana nem hoje, nem nunca. Só queria viver. Sozinha. Se fosse para ser com alguém, que fosse alguém agradável, pelo menos. Não era o caso.

...

Outro bar. Mais uma cerveja e uma dose de tequila e mais duas. Purinhas. Sal e limão só atrapalhavam, pensava ela. Chega.
...

Acordara sozinha, vestida. As lembranças querendo escapar enquanto ela esticava os braços para apanhá-las antes que fugissem. Como aquela cama era incrível. Abraçava-a como a noite engole o dia e com a sutileza da brisa que carrega o cheiro do mar para além da orla. E os lençóis...

15.6.11

Dói de tão lindo

...e é por isso que me obrigo a escrever sobre o que eu sinto. Sem dor, sigo sempre no marasmo. Com ela, me obrigo a olhar para minha alma adormecida. Também pudera, como não adormecê-la quando se é eu? Precisei fazer isso. Viver estava sendo um inferno. Então procurei voltar minha atenção para o mundo lá fora e esquecer do que se passava aqui dentro. Fui feliz. Me diverti muito vivendo minha vida superficialmente. Até que um rapaz, uma música e um filme me fizeram voltar novamente meu olhar para dentro de mim. Para o meu coração e todos aqueles sentimentos esquecidos no fundo de uma gaveta qualquer. Nunca os tranquei, apenas deixei de pensar neles. E assim vivi a minha vida no último ano. Até a última sexta-feira.